Polícia Militar de Minas Gerais

Programa Educacional de Resistência às Drogas - Proerd

Currículos Educacionais


1 Evolução dos currículos educacionais[1]

 

            O currículo original do D.A.R.E. não fora desenvolvido por especialistas em prevenção, mas por policiais e professores do ensino fundamental da cidade de Los Angeles com o objetivo de reduzir o uso de álcool, tabaco e outras drogas entre crianças e adolescentes, bem como para melhorar o relacionamento entre a comunidade e a polícia. Assim, apesar da alta popularidade e da rápida expansão nos EUA e no mundo, por mais de uma década o programa recebeu severas críticas da comunidade científica em relação à eficiência de seus benefícios. O Departamento de Justiça Americano financiou o primeiro estudo nacional do D.A.R.E. e os resultados, divulgados em 1994, mostraram apenas pequenas reduções em curto prazo no uso de álcool e tabaco pelos participantes, mas nenhuma redução no uso de maconha. Um relatório da Justiça Americana do ano 2009 citou trinta avaliações posteriores nas quais também não houve melhora significativa em longo prazo no abuso de substâncias pelos adolescentes. A esse respeito Frank Pegueros[2] declarou que:

“trinta anos atrás, todos acreditavam que se você apenas dissesse aos estudantes o quão prejudicial são as drogas e os desvios de conduta, eles ficariam longe dessas coisas. [...] Na realidade, muitos policiais me perguntam: ‘Quer dizer que eu estava fazendo errado por 15 anos?’. É evidente que estávamos!”, conclui Pegueros.[3]

 

            A partir de 1998, cientistas comportamentais passaram a sugerir uma abordagem diferente, com base em pesquisas bem-sucedidas sobre mudança de comportamento. Em vez de lições meramente informativas, eles propuseram um programa de construção prática do conhecimento, no qual o policial fornece estratégias de comunicação e tomada de decisão, permitindo que as crianças pratiquem essas habilidades através de dramatizações e simulações. Diante disso e em busca de um novo currículo, o Conselho Científico do D.A.R.E. America  escolheu o “Keepin’ it REAL” (posteriormente lançado no Brasil com o nome “Caindo na REAL”) dentre mais de duzentos listados no Registro Nacional de Programas Baseados em Evidência Científica dos EUA, mantido pela Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA)[4].

            Os novos currículos D.A.R.E. “Keepin’ it REAL”, ou Proerd “Caindo na REAL”, foram desenvolvidos pelos pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia – EUA, Dr. Michael L. Hecht[5] e Dra. Michelle Miller Day[6]. Nesse novo formato os policiais instrutores falam por apenas cerca de oito minutos durante cada lição, para que os alunos passem mais tempo praticando decisões difíceis em atividades com seus colegas de classe.

            O currículo destinado ao 5º ano do Ensino Fundamental concentra-se no desenvolvimento de quatro habilidades básicas do Modelo de Tomada de Decisão Proerd, enquanto o currículo para adolescentes, destinado a alunos do 7ºano, permite que os alunos apliquem as estratégias de comunicação de forma mais direcionada ao não envolvimento com drogas, violência e outras situações de risco. As quatro estratégias que compõem o acróstico “REAL” foram elaboradas a partir de trezentas entrevistas que os dois pesquisadores realizaram com crianças em diversas comunidades dos Estados Unidos.

            A decisão do Conselho Científico do D.A.R.E. America  em adotar o “Caindo na REAL” baseou-se no resultado de pesquisas científicas que demonstraram a efetividade do programa. A maior delas, publicada em 2003 por Hecht, Miller-Day e outros pesquisadores, aplicou questionários sobre o uso pessoal de álcool, tabaco e maconha a 6.000 (seis mil) alunos em diversos momentos ao longo de um período de dois anos. Os relatos dos estudantes que participaram do “Caindo na REAL” indicaram que eles experimentaram estas substâncias menos do que aqueles no grupo de controle e, ainda, efetivamente utilizaram uma ampla variedade de estratégias para evitarem o envolvimento com drogas e permanecerem sóbrios. Também se demonstrou uma maior propensão desses jovens em manter as atitudes antidrogas ao longo do tempo. Um subgrupo desse estudo, com 1.300 alunos que já usavam drogas, mostrou que o programa reduziu o uso da substância em uma taxa 72% mais elevada do que o grupo controle.

            Steven West[7], um conselheiro de reabilitação da Virginia Commonwealth University, o qual certa vez publicou uma metanálise demonstrando que o D.A.R.E. tinha efeitos insignificantes, mostrou-se animado por estes resultados e afirmou que "eles estão no caminho certo agora, com um programa fundamentado na ciência!"[8]. Richard Clayton[9], pesquisador aposentado que integrou a University of Kentucky, também já foi um crítico declarado do D.A.R.E., mas atualmente tem sido responsável por inúmeras melhorias científicas do programa, depois que se juntou ao D.A.R.E. America como membro do Conselho de Administração e presidente do Conselho Científico, composto por pesquisadores de prevenção. A respeito da adoção dos novos currículos “Caindo na REAL” pelo D.A.R.E., Richard Clayton afirmou que "eles escutaram a ideia apresentada na literatura de que o programa precisa ser interativo, e não de mera leitura didática. O que eles têm feito é algo muito surpreendente."[10].

            West e Clayton também argumentam que valeu a pena salvar o programa D.A.R.E., porque ele construiu uma notável rede entre escolas e instituições policiais, os quais se mostraram dispostos a trabalhar em conjunto para incentivar as crianças a conduzirem suas vidas de maneira saudável e inteligente. Com essa rede firme e consolidada, a maior responsabilidade da administração do programa D.A.R.E./Proerd é encontrar a melhor maneira de fazê-lo funcionar. "Queremos estar na vanguarda da pesquisa científica. Se você acredita nisso, não pode apenas falar por falar, você tem que construir a caminhada, e eu acho que isso é o que temos feito ao longo dos últimos anos."[11], diz John Lindsay[12], então diretor do D.A.R.E. América.

            Baseados em evidência científica e com um enfoque maior na formação cidadã, preparando as crianças e adolescentes para conduzirem suas vidas de maneira segura e responsável, os novos currículos “Caindo na REAL” proporcionaram uma virada na estratégia institucional e determinaram a definição atual da missão e da visão do programa D.A.R.E./Proerd[13]:

  • Missão: ensinar aos estudantes habilidades para tomada de boas decisões, para ajudá-los a conduzir suas vidas de maneira segura e saudável.
  • Visão: construir um mundo no qual os jovens de todos os lugares estejam capacitados para respeitar os outros e para escolherem conduzir suas vidas livre do abuso de drogas, da violência e de outros comportamentos perigosos.

 

2 Os atuais currículos educacionais do D.A.R.E./Proerd

 

            Atualmente, todos os currículos são apropriados para cada faixa etária, fundamentados em pesquisa científica e escritos por um painel de especialistas curriculares e de prevenção, estando em consonância aos Parâmetros Curriculares Nacionais (no Brasil) e aos Padrões Educacionais Fundamentais da Saúde, Artes da Linguagem e Matemática (nos Estados Unidos).

            Os cinco currículos educacionais representam uma ação permanente do Estado na prevenção primária e formam um sistema completo no qual os conceitos e habilidades enfatizadas pelo programa são desenvolvidos de forma gradual e progressiva, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, contando ainda com um currículo especial que prepara adultos (pais/responsáveis) para ajudar as crianças e adolescente a colocarem em prática esses conhecimentos. São eles:

Currículo para a Educação Infantil

destinado a crianças na faixa etária de 5 a 9 anos de idade cronológica (Pré-escola e 1º ao 4º anos iniciais do Ensino Fundamental), com foco na realização de atividades lúdicas para desenvolvimento das primeiras noções de cidadania, segurança pessoal e de práticas saudáveis.

Currículo para Crianças do Ensino Fundamental

destinado a crianças na faixa etária de 10 anos de idade cronológica ou mental, aplicado no 5º ano do Ensino Fundamental, com um mínimo de 10 (dez) encontros (um a cada semana). Desenvolve estratégias e habilidades para a tomada de decisão segura e responsável. Possui lições específicas sobre “Bullying” e “Conversa em Família”, envolvendo os pais no aprendizado do aluno.

Currículo para Adolescentes do Ensino Fundamental

destinado a adolescentes na faixa etária de 12 anos de idade cronológica ou mental, que estejam cursando o 7º ano do Ensino Fundamental, com ênfase na participação ativa dos alunos em debates sobre situações de pressão e risco para definir estratégias que os permitam evitar e afastar-se dessas situações danosas. Currículo aplicado com um mínimo de 10 (dez) encontros (um a cada semana).

 

Currículo para o Ensino Médio

destinado a jovens na faixa etária de 15 a 18 anos de idade cronológica ou mental que estejam cursando o Ensino Médio (aplicado preferencialmente no 1º ano), com o objetivo de ampliar e consolidar as maneiras de se utilizar informações sobre drogas e violência para fazer escolhas positivas, com especial foco na gerência do controle emocional. Este currículo, já utilizado nos EUA, está em fase de preparação e negociação para que seja implementado no Brasil.

Currículo para Pais e Responsáveis Legais

destinado a pais/responsáveis com um mínimo de 05 (cinco) encontros de duas horas para compartilhamento de informações e desenvolvimento de habilidades que os habilitam a ajudar crianças e adolescentes a fazerem escolhas seguras e responsáveis na autocondução de suas vidas.

 

 

Para acessar o documento completo, do qual essas informações foram extraídas, clique no link: Revisão Histórica do Proerd

 


[1] Traduzido e adaptado de: NORDRUM, Amy. The New D.A.R.E. Program - This One Works. Scientific American, a division of Nature America, Inc. 10Set2014. Disponível em: <<http://www.scientificamerican.com/article/the-new-d-a-r-e-program-this-one-works/>>. Acesso em 14/03/2019.

[2] Francisco X. Pegueros é Presidente & CEO do DARE America e membro do Conselho Consultivo da Escola de Pós-Graduação da University of West Los Angeles desde 2012, Graduado e Mestre pela Escola de Política, Planejamento e Desenvolvimento da University of Southern California. Exerceu o cargo de Capitão no Departamento de Polícia de Los Angeles (1971 a1997). Disponível em: <<https://www.linkedin.com/in/francisco-pegueros-37961b10>>. Acesso em 14/03/2019.

[3] Tradução livre. Texto original em inglês: “Thirty years ago, everyone believed that if you just told students how harmful these substances and behaviors were—they'd stay away from them. […] I've actually had officers tell me, ‘You mean I was doing it wrong for 15 years?’ Evidently, we were.”.

[4] Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA) é uma agência dentro do Ministério da Saúde dos Estados Unidos (U.S. Department of Health and Human Services) que lidera os esforços de saúde pública para o avanço da saúde comportamental da nação. A missão da SAMHSA é reduzir o impacto do abuso de substâncias e das doenças mentais nas comunidades americanas. Disponível em: <<http://www.samhsa.gov/about-us>>. Acesso em 14/03/2019.

[5] Graduado e Mestre em Comunicação pela Queens College em Nova York, Doutor em Comunicação e Saúde pela University of Illinois. Dr. Hecht é professor e pesquisador na Penn State University desde 1997; Presidente e Co-Fundador do programa “Prevenção REAL”. Disponível em: <<https://real-prevention.com/about-us-2/>>. Acesso em 14/03/2019. Página pessoal: <<http://cas.la.psu.edu/people/mlh10>>, acesso em 14/03/2019.

[6] Graduada em Comunicação pela University of Southern California, Mestre em Comunicação e Doutora em Filosofia pela Arizona State University; Co-Presidente e Co-Fundadora do programa “Prevenção REAL”. Dra. Miller-Day foi professora na Penn State University e Diretora do Grupo de Investigação Qualitativa até 2012, quando se juntou à Chapman University em Orange, Califórnia, como Professora de Estudos em Comunicação e Saúde e em Comunicação Estratégica. Disponível em: <<https://real-prevention.com/about-us-2/>>. Acesso em: 14/03/2019. Página pessoal: <<https://www.linkedin.com/in/michelle-miller-day-3871619a>>, acesso em 14/03/2019.

[7] Steven L. West é graduado em Psicologia e Mestre em Aconselhamento para Reabilitação pela University of Tennessee-Knoxville, Doutor em Filosofia e Desenvolvimento Humano pela Texas Tech University, professor no Departamento de Medicina Física e Reabilitação e diretor do Centro de Reabilitação, Ciência e Engenharia na Virginia Commonwealth University. Tem vasta experiência na realização de pesquisas sobre abuso de substâncias e questões relacionadas com a deficiência. Disponível em: <<https://www.memphis.edu/cepr/faculty/west.php>>. Acesso em 14/03/2019.

[8] Tradução livre. Texto original em inglês: “They are going the right route now—it's based in science.”.

[9] Richard R. Clayton é graduado em Sociologia pela Louisiana College, Mestre em Sociologia pela Florida State University, Doutor em Sociologia pela University of Tennessee, professor emérito do Departamento de Saúde Comportamental da University of Kentucky e pesquisador das áreas de controle do tabaco e abuso de drogas (epidemiologia, etiologia, prevenção e tratamento). Disponível em: <<http://cph.uky.edu/people/richard-clayton>>. Acesso em: 14/03/2019.

[10] Tradução livre. Texto original em inglês: “They listened to the notion that comes from the literature that you need to be interactive—not didactic lecturing. I think what they've done is pretty amazing.”.

[11] Tradução livre. Texto original em inglês: “We want to be on the cutting edge of research and science,” says John Lindsay, a regional director for D.A.R.E. America. “If you believe in that, you can't just talk the talk, you have to walk the walk—and I think that's what we've done over the last few years.”.

[12] John Lindsay é Bacharel em Ciência Política pela University of California e Mestre em Administração Pública pela Harvard University. Exerceu o cargo de Detetive no Departamento de Polícia de Palo Alto, California, o de Diretor no Gabinete de Política Nacional de Controle de Drogas dos EUA e o de Secretário Municipal/Chefe de Gabinete da cidade de Miami, Florida. Disponível em: <<https://www.linkedin.com/in/johnflindsay>>. Acesso em 14/03/2019.

[13] Tradução livre e adaptada. Texto original em inglês: The D.A.R.E. Mission: “Teaching students good decision-making skills to help them lead safe and healthy lives”. The D.A.R.E. Vision: “A world in which students everywhere are empowered to respect others and choose to lead lives free from violence, substance abuse, and other dangerous behaviors.”. Disponível em: <<https://dare.org/about/#MissionVision>>. Acesso em 14/03/2019.