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ACADEMIA DE LETRAS “JOÃO GUIMARÃES ROSA” DA PMMG


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As faces do luto
Autor: Flávio Santiago
 
Luto pela boa existência
Luto pela morte de uma sociedade plena
Luto por um prato de comida
Luto pela morte da mão amiga
Luto pela falta de vontade
Luto pela gana de viver
Luto pela morte de um ente querido
Luto contra a infâmia do bandido
Luto pois lutar é preciso
Luto quando perco o juízo
Luto por você
Luto ao te perder
Luto ao me vestir para o trabalho
Luto ao não sentir mais o orvalho
Luto na vida
Luto na morte
Luto
 
(Flávio Santiago)

LIBERDADE versus CORRUPÇÃO
Autor:
Klinger Sobreira de Almeida*

Among a people generally corrupt, liberty cannot long exist (Edmund Burke – 1729/1797 – Carta aos Xerifes de Bristol) – “A liberdade, no meio de um povo geralmente corrupto, não pode durar muito.” Eis uma afirmação feita há mais de dois séculos, mas que merece reflexão no atual quadro nacional.

Liberdade é um fruto saboroso. Todos, no seu gozo, se deliciam. Evidentemente ninguém, em sã consciência, gostaria de viver, ou vegetar, por exemplo, numa Coreia do Norte, onde o poder de uma dinastia tiraniza, escraviza, subjuga e amedronta um povo que mais parece um rebanho bovino a caminho do matadouro.

Usufruindo da liberdade, o cidadão, sob a égide de garantias constitucionais, pensa, manifesta-se, individual ou publicamente, escolhe seus governantes, indigna-se e age em face de malfeitos dos políticos, circula por todo o território, dispõe de uma imprensa sem mordaças...

Ser livre é maravilhoso. Desfrutando e comportando-se nos quadrantes da ordem jurídica, o cidadão tem a consciência de que deve preservar esse status que lhe assegura fazer aquilo que a lei não proíbe. Além das balizas legais, um povo livre deve desenvolver o senso dos limites. A liberdade individual não se confunde com libertinagem nem pode avançar no direito de outrem ou, partindo para o abuso, atentar contra o interesse público.

Feitas estas considerações, vejamos alguns questionamentos: Há situações que podem minar a liberdade de um povo? Que podem destruí-la? Sim. Uma delas, como bem frisou o pensador e político inglês do Sec. XVIII, é a corrupção entranhada em todos os segmentos da sociedade. Instalada e permeando o tecido social, de cima para baixo – vertical e horizontalmente – a corrupção toma foros de cultura: Cultura da Corrupção! E nesse campo florescem figuras e termos como Corruptor e Corrompido, Corrupção Ativa e Corrupção Passiva. No concerto das nações, o povo passa a ser conhecido como corrupto. Então, como a maioria não é corrupta, emerge um sentimento de “vergonha nacional”.

A Cultura da Corrupção é abrangente – administração pública, empresas privadas, públicas e estatais, membros de poderes públicos e funcionários do alto ao mais baixo escalão, sindicatos etc – e constitui seu ápice o Poder Político, incrustado no comando da nação pelo voto da massa que, adredemente mantida sem acesso integral à educação, viceja e se inebria com “pão e circo”.

A aparente impotência, aliada ao sentimento de vergonha nacional, cria um caldo favorável ao surgimento de um “Messias Salvador”, da direita ou da esquerda, populista ou títere, que, normalmente, pode emergir de lideranças que consigam empolgar essas massas enganadas, ou vir com o apoio das armas. Implantada uma ditadura, esta, a guisa de erradicar a corrupção e organizar a nação, suprime, via de regra, as liberdades democráticas. No momento inicial, o discurso é da temporariedade das medidas excepcionais para erradicar a corrupção. E o tempo passa. Os novos detentores do poder deslumbram-se, sentem-se os salvadores da pátria, donos da

verdade. Quando o povo assusta, descobre que está manietado, não tem condições de espernear nem de gritar. Então é tarde! Regimes supressores de liberdade eternizam-se, duram anos... Alguns, tal qual capitanias hereditárias, passam de pai para filho ou um irmão (vide Fidel Castro x Raul Castro, em Cuba; avô x filho x neto, na Coreia do Norte). Às vezes, é tão traumático o desmanche de uma ditadura que se lhe segue um caos permanente: Egito, Líbia, Haiti, Iraque, Síria...

O Brasil, creio eu, em matéria de corrupção ainda não chegou à marca do pênalti, mas está bem perto. Essa prática daninha, que vem dos tempos avoengos, não se enraizara como cultura. Medrava em alguns meios – mormente naqueles em que o agente público tinha o poder de polícia repressiva em condutas – porém permanecia no varejo, não se encastelava na alta-administração nem no cerne do poder político, salvo raras exceções. Contudo, a partir de certa época – últimos decênios do século XX e início do XXI - a coisa vem desandando, e a corrupção institucionalizou-se nos altos escalões administrativos e políticos e, incrível, até no impoluto poder judiciário.

Descalabros morais de um governo que, nos anos 80, notabilizou-se por pífios planos de contenção da inflação, mas que, na verdade, ensejavam desbragada corrupção no ciclo contenção versus abertura de preços tabelados. Seguiu-se-lhe o embuste que teve como maestro PCFaria e, depois, a privataria tucana. Tudo isso criou um pano de fundo indesejável para que a classe média, engabelada por um marketing bem estruturado, ajudasse içar ao poder político da nação um partido político que se revestira da aura de incorruptível.

Em 2002, as bandeiras da esperança se inflaram aos ventos da pátria. A maioria da população que consagrara Lula nas urnas acreditou nos planos que, em bem arranjados programas de marketing, lhe foram passados. O Brasil, tendo o PT no topo do poder executivo, marcaria uma nova era na educação integral e de qualidade, na segurança pública eficaz, na saúde plena, com foco na medicina preventiva, e no desenvolvimento de obras de infraestrutura. Acreditava-se, tendo por lastro os ideais apregoados em peças doutrinárias, na mídia e nas praças públicas, que, enfim, teríamos início de ações políticas éticas que, como uma torrente, erradicariam a corrupção. Ledo engano! Não foi isso que se viu.

A corrupção, bem engendrada e operada por profissionais inteligentes e hábeis, cristalizou-se no topo. Tornou-se política de manutenção do poder político. Ética e moral foram pisoteados sem nenhum escrúpulo, segundo o princípio falacioso de que os fins justificam os meios. Desembocamos no chamado mensalão – apenas reflexo visível da podridão do poder político – e, de um modo geral, assistimos as práticas corruptivas se enraizando e permeando todos os setores da vida nacional. Eis a evidência do velho ditado popular: o exemplo do topo acabou arrastando tudo e todos. Em coroamento, a Cultura da Corrupção se instalou na plenitude. Os tristes episódios que envolvem nossa empresa maior – a PETROBRAS – constituem apenas facetas de uma corrupção entranhada em todos os níveis e segmentos. Se se fizer a devassa geral em todas as esferas estatais – e nem temos condições de tanto! - ficaremos estarrecidos com a dimensão da podridão. E o povo que reelegeu os corruptos?! Este foi mantido na ignorância – não se lhe deu a oportunidade de educação e saúde - mas propiciou-se-lhe, em contrapartida, o “pão e o circo”. Assim, o povo alegre, sorridente e em festa com o

momento presente de aparente fartura, mas enganador, eterniza os demagogos, falsários e corruptos. A conta futura será dolorida!

Ainda é tempo de quebrar a estrutura dessa Cultura da Corrupção. A esperança da pátria é um Ministério Público independente, com respaldo num Judiciário incorruptível, e o apoio de uma Polícia Federal não contaminada. Para esses três órgãos deve convergir a solidariedade plena e total das forças vivas da nação que ainda estão imunes à degradante corrupção. E aí temos uma imensa mídia não cooptada, os políticos de formação moral rija, uma grande extensão da administração pública que repudia e não se compactua, a parte sadia das polícias estaduais, o empresariado avesso à corrupção, as entidades religiosas distanciadas do mal... Esse conjunto deve, num esforço de inteligência, levar a mensagem ao povo, despertá-lo e preveni-lo contra os demagogos “falsos profetas”.

A hora é agora! Caso não erradiquemos essa corrupção que adquiriu contornos de cultura, e que tantos malefícios tem feito à nação, a hora seguinte poderá ser tarde. A leniência poderá levar ao cascateamento das ondas de corrupção que a tudo invadirão. Se chegarmos a esse estágio, que se tornará insuportável – as riquezas da nação surrupiadas e o povo arrastado à extrema miséria – haverá o levante das massas, criando-se o caldo de fundo para a intervenção armada ou o surgimento de um “messias salvador”. E esse filme é sobejamente conhecido: o detentor do poder, que se anuncia transitório, toma gosto pelo poder, e este descamba para arbitrariedades e supressão das liberdades. O futuro da nação despedaça-se, vira cacos.

Reflitamos, pois, sobre o chamamento feito por Edmund Burke há mais de dois séculos – Among a people generally corrupt, liberty cannot long exist – e busquemos nos unir para a guerra contra a corrupção. Cada brasileiro pode dar sua parcela de contribuição. Façamos isto, antes que seja tarde.

 

*O autor, militar estadual reformado, é membro da Academia de Letras João Guimarães Rosa/PMMG.


Praia Seca
Autor: Flávio Santiago

Seca o rancor
Seca a intenção danosa
Seca a vaidade
Teu mar não tem idade
E tua secura, prosperidade
Oh! linda seca praia
Praia Seca
Que teu mar mareia
E na areia 
Construo castelos de sonhos
Tua samambaba é samba
E tua brisa
Alisa meu semblante 
Que por um instante
Transcende minh'alma
Que calma
Que lugar
Onde o mar abraça a lagoa
E numa canoa viajo
É da rede que confesso
E do mal arremesso
Minhas angústias sem fim
As casas sem muralhas
Aproximam corações
E junto a canções
Nos tornamos um
É como se tua terra se juntasse aos meus tornozelos
E no flamboyant vermelho
O tempo postasse
A foto mais bonita da existência
Teu sal é curativo
Sendo mais um motivo
Para afastar o mal agouro
Mas, agora
Volto ao mundo real
Pois no teu quintal, Praia Seca
O mal não existe afinal
A você, linda terra
Minha calorosa reverência


Orai e vigiai
Autor: Flávio Santiago

Orai e vigiai
Vigia a hora
Hora do vigia
Vigia agora
Ora na vigília
Vigia o vigia
E no limite, ore
Mas, faça na vigília
E vigie a oração
Vigilância, não paixão
Oração, nunca é demais
Vigiai e orai

Inspirado em Leminski
Por Flávio Santiago


Tem fardado no céu
Autor: Flávio Santiago

Mais um combatente tombou
E ninguém chorou? 
Chorou!
Lágrimas que nunca secarão
Foi em vão? 
De sopetão?
Não! 
Foi no combate, meu irmão
Foi defendendo a nação
De quem mata por um tostão
Essa não! 
Uma puta assombração
Pra família...falta chão
Pra PM, um guardião
Que defendia a multidão
E que tinha na missão
Ouro, prata e uma mistura de tons
Aos anjos, mais um pra posição
Para nós, indignação
Amigo, que a sua intenção
Seja prece em canção
A nos proteger do cão
Disfarçado de vilão. 
Vai com Deus, 
E de coração
Olhe para os seus...que no combate ficarão

(Homenagem aos policiais mortos em serviço)
Flávio Santiago


Tons da madrugada
Autor: Flávio Santiago

Madrugada companheira
Não do sono
Algoz inanimado da insônia
Que de tão soberba
Nem dorme de preocupações
E se não durmo
Observo o silêncio
E regurgito o passado 
Quase sem querer
Algumas vezes forço
Mesmo na inconsciência
E te vejo no prateado na noite
Bendita lua a proporcionar
Tamanho espetáculo
Que apesar de poucos expectadores
Não se acanha no seu poder
O breu da noite nos engole
Mas a vontade de saber o segredo por trás das cortinas de tons azuis escurecidos
Nos invade a alma
Que por um segundo
Somos réus confessos
Difícil não acreditar em nada
Difícil ver o nada e acreditar...
Na calada da noite me calo em respeito a tudo isso. 
(Flávio Santiago)


O POÇO
Autor: Flávio Santiago

Cuidado, Seu moço
Olha o poço
Vê se não cai

A fundura é de um tanto
Que mergulhar só por encanto

Então, respeite o poço
Senão só de pescoço
Que vamos te reconhecer

É pra valer, Seu moço
A vida é um enrosco só
Cheia de nó e de fio desencapado

Sóbrio ou chapado
Não dá pra enganar de vez
Daí vem a peça travez

Um enorme tabuleiro de xadrez
Cheque atrás de cheque
Xeique atrás de Xeique
Ninguém tá isento

No momento
Temos que aprumar o passo
Retirar o laço
E viver de uma só vez

Mas, o poço Seu moço
Traz água fresca, eu sei
Que refresca a alma
Mas calma

Se cai lá dentro
Ninguém poderá te ouvir
Então, prudência ao sair

Escreva num papel
Para outro capitel
Que por ali passar

Respeite o poço, outro moço
Quem me ama avisou...


A arte do sofrer
Autor: Flávio Jackson

Sofro diante das mazelas do mundo
Mas, recheio meu mundo com a agonia da intemperança

Sofro com benditos inglórios

Sofro um sofrimento insólito
Mas, gostaria que o mundo fosse meu

Sofro a falta de reconhecimento
Mas, não me reconheço

Sofro pela doença terminal
Mas, não terminei o que comecei

Sofro pelo câncer do ódio
Mas, não me abstive do seu cálice diário

Sofro a falta de visão
Mas, somente enxergava o caos

Sofro a falta duradoura
Mas sem falta não há jogo

Sofro por não buscar
Mas não topo a inércia

Sofro pelo reconhecimento tardio
Mas minhas manhãs são recheadas de luas e estrelas

Sofro pela erva daninha
Mas minhas palavras servem de açoite

E a noite sofro mais um dia...


O que foi Antenor?
Autor: Flávio Santiago

O que foi Antenor?

Tô triste dotô

O que é que se passou?

Os Homi desarmô

Que homens, Antenor?

Os policia, dotô

Que mal há nisso, Antenor?

Num sô letrado, Dotô
Mas sei o que passô
Os político vacilô, dotô
A tal da vaidade entrô
Agora ficô fácil pra quem assaltô e robô
Vão perde o medo, dotô
De quem sempre segurô
E ainda representô
Os tar que governô

Ah! E ainda guentô
Muito preconceito, dotô
Por que muitos manifestô
De estudante a Professô
Com e sem motivo jogô
Pedra nas estátua e quebrô

Disso eu também não gostei, Antenor

Pois é dotô
Veja como nós ficô
O pessoal do movimento é que gostô

Agora, tá na mão do Sinhô
Que vai julgá os polícia, dotô
Principarmente no que atirô
Naquele que tentô
Contra minha vida e robô
Minha criação e entregô
Por dinheiro ao jogadô

Veja, dotô
Seja lá o que fô
Vou rezá pelo policia que ficô
Desamparado e com muita dor
Pelo processo que se instarô
E sozinho ficô

Deixe comigo, Antenor
Com imparcialidade eu vou
Julgar o nosso defensor
E retirar a dor
De quem inseguro ficou

Obrigado, Dotô

De nada, Antenor

(Flávio Santiago)


Flor de Lótus
Autor: Flávio Santiago
 
Oh! quão bela és tu, Flor de Lótus
Elege o pântano para florescer
E do preto e branco passa a escolher...
...Colorir
Grande exemplo para a raça humana
Que da cor mundana
Faz o sentimento amargo...
...Emergir
Quantos de nós nos entregamos
Pela dor que não suportamos
Quando gratos deveríamos ser
Preferimos ter, Flor de lótus
Invariavelmente
E tão somente
Pelo egoísmo que nos domina o Ser
Quão bom se enxergássemos como tu observas
Desprendidos de tantas ervas
Daninhas ao nosso ver
Tu não te importas com a vizinhança
Nem age com desesperança
Por necessidade de sempre querer
Pelo contrário
Age com compaixão
Empresta a beleza ao cenário e a ocasião
Ignorando uma multidão
Que discrimina sua intenção
Fica nossa gratidão
Pelo exemplo, Flor de Lótus
Por não deixar que permaneçamos mortos
Na busca pela aceitação
Permaneça altiva
E na mais suave brisa
Convoque-nos a reflexão
 

O QUE DIRÁ O BARQUEIRO     
Autor: Flávio Santiago

Oh! Barqueiro deixe-me passar
Do outro lado quero estar

Não! Não posso ajudar

Por que, barqueiro, há de postergar?
E sua tarefa não executar?

Não és digno de no meu barco entrar
Não é simples transitar

Para navegar, não posso sublimar
E trazes vícios que não posso extirpar

Mas, barqueiro, a viagem eu posso comprar
Tenho influência que pode pagar

Não, tua história é só de vingar
Seu dinheiro aqui não valerá

A moeda que peço só vai ajudar
Aquele que despido de vaidade chegar

E você, não soube lapidar
Sua pedra embrutecida ainda está

Agora, volte e encoraje os que estão lá
A prática do bem e a própria pedra lascar

Não é pra suavizar
Tampouco fingir e enganar

É pra fazer da verdade o rumo a tomar
É pra sangrar
E o coração desbastar

Não dá pra roubar
Tampouco enrolar

Na vida mundana há de ficar
E no próprio egoísmo afogar
Esse mar há de te curar

E quando aqui voltar
Peça o último lugar
Só assim vou poder notar
O quão pôde cambiar

E do vício, purificar

Aí, tua alma vou levar
Pro tão sonhado lugar
Mas aviso desde já
Não tente me enganar

Posso ver onde o ouro está
Aquele que o seu dinheiro não pode comprar

Depois, só nos resta navegar
E no meio da neblina apagar

Quem sabe um dia, no meu lugar estará

(Flávio Santiago)